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Pediu-me uma vez a Alcina
que escrevesse "qualquer coisa" sobre a Josefa. Mau, como sabem (ou
sabiam...) os meus alunos, o Barroco é coisa para ir estudar para casa...
Não é o meu forte, nem me desperta a paixão. Levem-me antes ao jardim do
Conde de Oeiras, de manhã, e à tarde aos jardins do rei, em Queluz; aí
está um bom dia de "Visita Cultural" (e vão ver se me calo). A temática
destes jardins é grandiosa e erudita mas o Rocócó e o Neoclassicismo já
espreitam...

Josefa de Óbidos,
natureza morta, s/data. Barros e cesto, queijo e cerejas.
A pintura de Josefa é essencialmente
uma arte devocional e para a entender-mos é necessário conhecer desde
Zurbarán até á gravura Holandesa (um católico, a outra, até protestante) e
claro, a pintura de seu pai, Baltazar Gomes Figueira, esse excelente mas
ignoto (era homem) pintor português, vão a Évora vê-lo.
Josefa de Óbidos é
um nome refúgio, nem toda a sua pintura é de Ayala...
É do ritual diário do claustro conventual que nasce a arte de Josefa. Não é simples,
nem muito ortodoxa..., mas contém sentido profundo e extenso.
As imagens da Natureza, o seu melhor, são vistas através de pontos
simbólicos do ritmo natural e sensual das estações do ano, são janelas
sobre o seu significado transcendente.
As festas, referem comemorações de um tempo da natureza que é posse do
divino, dádiva e participação humana (os bolinhos). As suas pinturas são
revelações do divino na natureza e no labor do homem, são sacrifícios litúrgicos,
oblações, em
sentido lato e no sentido restrito, Bíblico.
Josefa não distingue, entre a pintura religiosa e a natureza morta, esta
é, sempre, pintura religiosa. Os elementos da sua pintura fazem parte
dessa cadeia áurea que se eleva do simples barro, a matéria, passando pelas
plantas e flores, aos animais, ao homem, aos anjos, até ao puro espírito.
Os seus objectos
pintados, profanos ou naturais, são de facto místicos. Portanto,
contemplações de Deus.
A. Melo Nov. 2002
Bibliografia actualizada:
ver primeiro Reinaldo dos Santos.
The Sacred and The Profane: Josefa de
Óbidos of Portugal
Josefa de Óbidos, 1634-1684
catalogue coordinators: Maria de Lurdes Simões Carvalho, Jordana Pomeroy;
texts, Vitor Serrão et al.MC/National Museum of Women in The Arts,
Washington,1997
Crowning Glory: Images of the Virgin in the Arts of Portugal
Maria de Lurdes Simões de Carvalho, Julia Robinson
ed. Jerrilynn D., Dodds, Edward J. Sullivan. Newark Museum, 1997
Josefa de Óbidos: Exposição Comemorativa do
3º Centenário da morte da pintora Josefa d'Ayala e Cabrera-Josefa de
Óbidos. Solar da Praça de Santa Maria, Agosto Setembro 1984 FCG/CMO
Roteiro da Exposição "Josefa de Óbidos e o
Tempo do Barroco"
apresentada na Galeria de Pintura do rei D. Luis, no Palácio da Ajuda em
1991. Coordenação e texto de Vitor Serrão, IPPC/TLP
(fez-se visita de estudo)
Conferencias sobre Josefa na The European Academy, em Londres:
"Towards the Golden Age: The Eighteenth
Century in Portugal"
Professor Kenneth Maxwell, University of Columbia, New York, USA
"God among the pots and pans"
Josefa d'Óbidos and Spanish Still-Life painting"
Dr. Gabriele Finaldi, conservationist for Later Italian and Spanish
Painting at the National Gallery
Mesa redonda: Josefa d'Óbidos of Portugal:
Love, Mysticism and the Art of Memory", by Prof.Barbara von Barghahn of
George Washington University, Washington DC
Artigos na imprensa Inglesa:
- In the art of Josepha de Obidos, a rarely seen feminine side of the
Counter-Reformation. (David Scott, Editor of our Sunday Visitor)
- Rediscovery of a Portugese Painter's Spiritual Masterpieces.
(Souren Melikian, International Herald Tribune)
- A revelation. (John Mc Ewen, The Sunnday Télegraph) |