A mais
antiga referência ao funcionalismo surge em Xenofonte, escritor grego e
discípulo de Sócrates, nascido cerca de 430 a.C. e falecido em meados do século
IV a.C. [1]
O
Funcionalismo é uma filosofia que substitui o critério do Belo pelo do
útil, na mobilização dos recursos e das novas tecnologias, e na correcta
utilização dos materiais, para a execução da “Nova Arquitectura”, entendida como
ponto de convergência das artes (Gesamtkunstwerk).
O
Funcionalismo do Movimento Moderno é socialmente empenhado [2] na construção de uma
sociedade onde o Urbanismo, a Arquitectura e o Design, apoiados na Industria [3] estão ao serviço da
sociedade e das necessidades das populações, declarando-se portanto contra o
ornamento, o historicismo e o formalismo [4].
Esta
filosofia virá a ser adoptada pela Bauhaus e pelo Movimento Moderno, e é
resumida na fórmula dos três “efes”, “form follows function” do arquitecto
americano Louis Sullivan [5].
Na Europa
Ocidental, o Movimento Moderno, adoptou os ideais sociais e o Funcionalismo nas
suas propostas para a reconstrução Europeia do pós-guerra [6].
Nos E.U.A.,
que acolheram os artistas Europeus refugiados da Segunda Guerra, o Movimento
Moderno e o Funcionalismo não foram compreendidos na sua dimensão revolucionária
e reformista, mas apenas na sua dimensão estética e formal, o chamado Estilo
Internacional [7].
O
Funcionalismo enquadra-se na corrente Racionalista da Arquitectura do
século XX, tendo origem na conjuntura social do pós Primeira Guerra Mundial com
o rápido desenvolvimento industrial, a mecanização dos transportes e um grande
crescimento populacional urbano [8].
O
Funcionalismo defende a prioridade do Planeamento Urbano sobre o projecto de Arquitectura [9], a máxima economia na
utilização do solo e na construção, a racionalidade das formas arquitectónicas
na resolução das necessidades identificadas [10] e o recurso ás novas
tecnologias industriais [11].
A figura
central é o arquitecto suíço Le Corbusier que propõem o sistema construtivo
“Dom-ino” em 1914, lajes de betão armado directamente apoiadas em pilares. Este
sistema construtivo permitia a construção em serie e pôr em prática os
princípios da planta livre, da fachada livre e do espaço interior contínuo [12], necessários ao projecto
racional de qualquer tipo de edifício adaptável às necessidades e exigências dos
seus habitantes ou utentes.
A rápida
expansão internacional destes princípios foi patrocinada pelos Congressos
Internacionais de Arquitectura Moderna -C.I.A.M.- a partir de 1928 e
que marcaram a Arquitectura e o Urbanismo Modernos especialmente na Europa e nos
Estados Unidos na segunda metade do século XX, mas também um pouco por todo o
mundo.
O
Funcionalismo defende que os problemas de Design, de Arquitectura e de Urbanismo
são essencialmente os mesmos, variando apenas em escala, portanto abordáveis por
uma mesma metodologia de projecto [13].
Os principais arquitectos do Movimento Moderno foram Le Corbusier, Walter Gropius e Mies van Der Rohe, os dois últimos emigraram para os EUA após a Segunda Guerra Mundial onde executaram obras no chamado Estilo Internacional.
E. S. J. O. HA Prof. Melo 2001
[1]
No diálogo de Sócrates com Aristipos,
diz Sócrates: “A Beleza é uma função do propósito que se pretende atingir. A
casa bem construída é simultaneamente bela e útil. As decorações e pinturas
retiram mais satisfação do que realmente podem dar.”
[2] Por influência da tradição Iluminista do séc. XIX e dos Construtivistas.
[3]
Deutsche
Wekbund. Exposição da Bauhaus de 1923: “Arte e Técnica, uma nova unidade”.
[4] e o Capitalismo, L-C:”Architecture ou Revolution” in Vers Une Architecture, 1923. Adolf Loos “Ornamento e Crime”, 1908.
[5] “a função determina a forma”. Sullivan pertence á Escola de Chicago e é um intérprete do Modern Style (Arte Nova) que influenciou Loos.
[6] L-C. Vers une Architecture, 1923;
Gropius W. Internationale Architektur (Bauhausbücher), 1925; Hilberseimer
L. Internationale neue Baukunst, 1926;; Sartoris A. Gli Elementi
dell’Architettura Funzionale, 1932; Sigfried Gideon Space, Time and
Architecture: The Growth of a New Tradition, 1941.
[7] um “estilo” (formalismo)
caracterizado por três elementos: “ênfase no volume ou no espaço em vez da
solidez; regularidade em oposição a simetria; elegância de materiais, perfeição
técnica e belas proporções em vez de ornamentação aplicada”. Ou, acerca do
escritório de Mies: “Não há melhor decoração para um quarto do que uma estante
cheia de livros” in Hitchcock H-R. Johnson P.: The International Style,
1932.
[8]
O Racionalismo do séc.
XX é herdeiro do Racionalismo do séc. XIX que tem origem em Carlo Lodoli
1690-1761 e Abbé Laugier 1713-69, que propunham um Neoclassicismo derivado de
primeiros princípios, e ainda dos ensinamentos de Julien Guadet 1834-1908,
professor que inicia a cadeira de Teoria da Arquitectura na Ecole des Beaux-Arts
de Paris e que publica Elements et Theorie de l’Architecture, 1896, onde
afirma: “ser clássico não é estar enfeudado a um partido...;
mas colocar na base dos estudos os elementos consagrados pela razão, pela
tradição lógica, pelo firme respeito de princípios superiores.”, “a Arquitectura
é a expressão da verdade da
construção” e “o Belo em Arquitectura é idêntico á Verdade”. Guadet foi
professor de Auguste Perret e Tony Garnier.
[9] Carta de Atenas 1933; L-C. Les trois Etablissements humains; o zonamento e a segregação. As quatro funções da Cidade Moderna: Habitar, Trabalhar, Circular, Cultura e Desporto.
[10] as áreas funcionais mínimas, o Existenzminimum. Em Portugal: Nuno Portas, Funções e Exigências de Áreas da Habitação, LNEC, 1969. Regulamento Geral das Edificações Urbanas (RGEU).
[11] Padronização, préfabricação e seriação. L-C: “l’objet type” e ”la maison c’est une machine a habiter”. Exposição do Weissenhoffsiedlung, Estugarda, 1927.
[12] L-C. Les cinq points de l’Architecture
Moderne 1926; Les quatre Compositions 1929.
[13] Nicolaus Pevsner Pioneers of the Modern
Design: from William Morris to Walter Gropius, 1936 e The Sources of
Modern Architecture and Design, 1968; Banham R. Theory and Design in the
First Machine Age, 1960; Benevolo L. e outros La Progettacione della
Città Moderna, 1967; Broadbent G. Design in Architecture, 1973.
E. S. J. O. HA Prof. Melo 2001